Sinafresp repudia insulto do ministro Paulo Guedes a servidores públicos

Divulgação de notas de repúdio e elaboração de medidas representativas e judiciais são as ações empreendidas por entidades que o Sinafresp integra

O Sinafresp acompanhou no fim da última semana a repercussão da fala do ministro Paulo Guedes, durante evento na capital carioca, em que ele compara os servidores públicos a parasitas.

O presidente do Sinafresp, Alfredo Maranca, aponta em nota do sindicato que a afirmação do ministro é mais um episódio lamentável em que membros do governo demonstram inclinações nazistas.   

A reação contra a agressão do ministro aos servidores tem sido construída em conjunto com as entidades de grau superior que o Sinafresp compõem, a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco) e o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate).

Na própria sexta-feira, as entidades divulgaram em âmbito nacional notas de repúdio à conduta de Guedes com os servidores, uma vez que não é a primeira vez que o ministro e outros membros do governo federal fazem críticas ao serviço público e tentam colocar o servidor como vilão dos problemas financeiros enfrentados pela União e pelos entes.

As entidades também estão preparando uma representação contra Guedes na Comissão de Ética da Presidência da República e uma ação judicial contra a fala que constitui um verdadeiro assédio institucional aos servidores.

Confira a seguir o texto em que o presidente do Sinafresp faz reflexões sobre esse grave episódio.

 

Um comentário de um parasita sobre o exterminador

Temos que conversar sobre os servidores parasitas e os liberais exterminadores de seres humanos indesejáveis. Já passou da hora de conversarmos sobre ações de inspiração nazista como se fosse nada. O atual governo se apresentou na eleição como cristão, religião cujo núcleo deveria ser o amor ao próximo. É muito diferente agir de forma semelhante ao supostamente católico Adolph Hitler, com o antissemitismo e o desprezo pelos seres humanos que ele entende inferiores.

Em toda história, é comum na política colocar personagens toscos para desempenhar papéis de mando. Eles discutem menos e obedecem cegamente às cartilhas que lhes são fornecidas. Já na Grécia antiga, Aristófanes escreveu uma peça onde Demóstenes busca desesperadamente um ignorante para governar a cidade, já que desgraçadamente um plano de educação do governo anterior deixou esse tipo de material em falta por ali. Felizmente encontrou um assim e disse que o único defeito daquele que encontrou era “saber ler, ainda que seja mal. Porque o governo não é coisa de homens instruídos e de conduta inatacável, mas dos ignorantes e licenciosos.”. Grande crítica social de mais de dois mil e quatrocentos anos.

É necessário empoderar o tosco, pois só ele pode fazer atrocidades sem pestanejar. Só uma pessoa assim pode executar o plano de exterminar os servidores públicos como vermes parasitas, em nome da liberdade do mercado e dos bancos. Convencer a população que a sua miséria tem uma causa, e que não é a exploração burguesa e o desemprego, agora patrocinado pela lei trabalhista, mas uma classe social indesejável, anacrônica, que tem que ser aniquilada para o progresso da nação brasileira.

O tosco pode até se fazer de autêntico, sem essa chatice de respeitar as pessoas. O presidente Emmanuel Macron, por sinal também parasita profissional, apaixonou-se e casou com sua professora de literatura, 22 dois anos mais velha. O tosco faz humor, fala com indiscrições. Os nazistas brincavam entre eles, faziam piada, realçando o preconceito que os unia. Uma mulher mais velha é feia, lindo é o ministro.   

O triste espetáculo do Secretário da Cultura fazendo “cover” do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels talvez tenha sido o episódio mais claro, mas não é o pior. Agora é a essência de Goebbels que está imperando, a ideia odiosa que Hitler havia escrito em seu livro Mein Kampf, onde ele descreve o povo judeu como sendo um “eterno parasita, que se espalha mais que um bacilo.”

A explicação didática do Ministro Guedes, tem o mesmo contexto do texto escrito por Hitler quando estava na cadeia, pela tentativa patética de golpe de estado, em que ele explica que o “efeito da existência dos judeus é similar ao dos parasitas: onde eles ocorrem, o hospedeiro morre mais cedo ou mais tarde.” Hitler, assim como Guedes, desumaniza o “inimigo”, para tornar seu extermínio aceitável, como os ingleses que chamam a carne servida na mesa de “beef” e o animal que passeia e brinca de “cow”, apagando a imagem da violência.

Como isso é visto na perspectiva dos vermes parasitas? Também é muito semelhante ao nazismo e isso é maravilhosamente descrito por Franz Kafka, o escritor que nosso Ministro da Educação confunde com Kafta, aquele espeto de carne moída árabe. Pode ser, porém, que o ministro que faz Tik Tok de dançando na chuva tenha sua parcela de razão, já que a palavra vem do árabe e significa moído. É como está sendo o servidor público, moído. Kafka era alvo do nazismo, por ser judeu e por ser húngaro, duplamente segregado. Em seu livro “Metamorfose”, o personagem principal do livro, Gregor, trabalha duro para sustentar sua irmã e seu pai, mas por algum motivo a dignidade de seu trabalho não é percebida. Aos poucos, o mundo se relaciona com ele como se ele tivesse se transformado em alguma espécie de barata, e a confusão aumenta até o ponto de ele não conseguir sair da cama para ir trabalhar.

Assim como o Gregor policial, que tem que disfarçar para não chegar para dormir em seu barraco ainda usando sua farda, ele já perdeu a esperança de ser compreendido, já acostumou ser tratado como parasita pela mídia.

Gregor e o servidor público, porém, não querem destruir o Estado, com suas escolas e hospitais, e luta por sua vida miserável. Tudo que Gregor pensa quando não consegue sair da cama para ir trabalhar é o dano que isso vai causar ao seu pai e irmã, que não vai mais poder sustentar. Posso garantir a todos que o que mais dói ao servidor público é ver o Estado sendo destruído, as escolas desfeitas, os hospitais condenados. Ver o fisco sendo ridicularizado cobrando impostos enormes do diesel e gasolina e isentando o querosene de aviação.

O socialismo localiza a luta de classes entre a burguesia e o proletariado. O nazismo veio para substituir o  socialismo, que criticava, mas usou mais ou menos a mesma estrutura, apenas desvirtuou a base econômica socialista para, com uma massiva propaganda, difundir a ideia de que a luta é entre “trabalhador” e “parasita”. Naturalmente, tendo forçado essa explicação de que a causa de todos os males era algum parasita, teve que criar uma explicação de quem seria esse parasita. No que temos hoje, que podemos chamar de um “pós-nazismo”, conseguiram fazer uma ginástica ainda maior, criando uma explicação onde a contradição seria entre “trabalhador” e “servidor”. É digno ser trabalhador apenas se ele não tiver nenhuma relação de emprego, nenhuma segurança. Se tiver alguma doença grave, que se vire fabricando metanfetamina como no seriado Breaking Bad. O desempregado hoje se chama de empresário. Não é miserável, apenas falta fluxo de caixa.

Isso coroado em um país que agora vai resolver seus problemas dentro das regras de mercado. O novo governo liberal mineiro já teve, logo de cara a oportunidade de resolver inundações de lama com a livre iniciativa. Temos hoje formas muito mais eficientes de saúde pública. Em lugar de prevenção, a gente morre de malária e dengue, de forma natural para que prevaleça no mercado o mais saudável. Na hora em que chegar aqui o Corona, não vamos nos defender com hospitais públicos, mas tenho certeza que a bolsa de valores vai equilibrar o problema.

Até quando, Brasil, vamos fingir que isso não está acontecendo?

Alfredo Portinari Maranca
Presidente do Sindicato dos Agentes Fiscais de Rendas do Estado de São Paulo